Cooperativismo cresce em escala e entra na era da gestão profissional
Com 25,8 milhões de cooperados e R$ 757,9 bilhões em ingressos no país, setor amplia peso econômico e cobra das cooperativas mais governança, tecnologia e capacidade de competir sem abrir mão da identidade coletiva.
- Grupo VIASOFT
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O cooperativismo brasileiro deixou de ser visto apenas como modelo associativo e passou a ocupar posição cada vez mais robusta na economia. Em 2024, o país somou 4.384 cooperativas, 25,8 milhões de cooperados, 578.035 empregos diretos e R$ 757,9 bilhões em ingressos. O total de ativos chegou a R$ 1,39 trilhão, num movimento que reforça o peso do setor em diferentes cadeias produtivas.
No agro, o cooperativismo segue como um dos pilares dessa expansão. O ramo agropecuário encerrou 2024 com 1.172 cooperativas, 1,09 milhão de cooperados, 268.279 empregos e R$ 438,3 bilhões em ingressos. No mercado externo, as cooperativas apoiadas pela ApexBrasil exportaram US$ 8,48 bilhões em 2024, o equivalente a 2,5% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior e a 5,2% dos embarques do agronegócio.
Para Victor Rios, gerente-geral da Organização das Cooperativas Brasileiras de Goiás (OCB-GO), o desafio agora já não é apenas crescer, mas transformar a escala em competitividade sem perder a base cooperativista. “O principal desafio é evoluir como modelo de negócio, ampliando competitividade sem perder a essência da cultura cooperativista. Isso significa fortalecer a gestão de resultados, com foco claro em eficiência, escala e geração de valor”, afirmou.
Na avaliação dele, o setor vive uma mudança de mentalidade. Se antes muitas cooperativas estavam voltadas sobretudo para dentro de casa, agora a pressão do mercado empurra o segmento para uma agenda de expansão, industrialização, agregação de valor e inserção internacional. “As cooperativas estão mais ambiciosas, com foco em gestão de resultados, expansão de mercado, industrialização e posicionamento global”, disse.
Esse avanço, porém, cobra um preço na profissionalização. Para Rios, a ideia de que a cooperativa pode crescer apenas com tradição e boa vontade ficou para trás. “Hoje, a profissionalização é uma necessidade absoluta. Não existe crescimento sustentável sem gestão de resultados, governança estruturada e tomada de decisão estratégica”, afirmou. Entre os pilares que ele considera indispensáveis para os próximos anos estão transparência, prestação de contas, separação clara entre governança e gestão, planejamento estratégico e capacitação contínua de lideranças.
Os números ajudam a explicar por que essa discussão ganhou centralidade. O cooperativismo brasileiro cresceu 66% em número de cooperados desde 2019, segundo o Anuário do Sistema OCB, e já está presente em mais de 64% do território nacional.
Outro eixo decisivo é a tecnologia. Rios afirma que inovação deixou de ser diferencial e passou a ser condição de permanência no mercado. “Inovar é sobrevivência. E está diretamente ligada à capacidade de gerar resultado.” Para ele, as cooperativas que conseguem usar dados, inteligência de mercado e digitalização saem na frente, desde que a tecnologia esteja ligada à estratégia e não apenas ao discurso.
No fundo, a mudança que o setor vive é menos estética e mais estrutural. O mercado segue cobrando eficiência, escala, acesso a novos mercados e velocidade de decisão, mas o cooperativismo tenta responder sem abrir mão do vínculo com sua base. É nesse equilíbrio que, segundo Rios, está a força do modelo: combinar gestão orientada a resultados com impacto social e desenvolvimento compartilhado.