Margem por litro de combustível: faturamento maior, resultado menor

Vender mais litros e ganhar menos não é contradição. É o que acontece quando a composição do que se vendeu muda e a empresa mede volume em vez de medir margem por litro.

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O relatório de vendas fecha em alta e a sensação é boa. O resultado do mês chega depois e não acompanha. Entre um e outro está a margem por litro de combustível, que é onde o volume vira dinheiro ou deixa de virar. Vender mais litros e ganhar menos não é contradição: é o que acontece quando a composição do que se vendeu muda e ninguém mede.

 

O que é margem por litro de combustível e por que o volume não a garante

Margem por litro de combustível é a diferença entre o preço praticado e o custo de aquisição daquele litro, no local de estoque de onde ele saiu. É uma conta por produto e por origem, não uma média da empresa, e é isso que a torna útil.

O volume não garante a margem porque litro não é mercadoria única. Gasolina, diesel e etanol têm custos e margens diferentes, e o mesmo total de metros cúbicos com outra composição produz outro resultado.

Some-se a isso o efeito da origem. O mesmo produto pode ter custo diferente conforme a base de onde saiu, o momento da compra e o frete embutido. Uma empresa que precifica pelo custo médio geral vende abaixo do custo sem perceber, em algumas operações, e cobra caro demais em outras.

É por isso que crescimento de faturamento e crescimento de resultado se descolam com tanta frequência neste setor. Um mede quanto entrou; o outro, quanto sobrou.

 

Como calcular a margem por litro: bruta, de contribuição e líquida

São três camadas, e confundir uma com a outra é o erro mais comum. A margem bruta compara preço e custo de aquisição. A de contribuição desconta o que varia com a venda. A líquida chega depois do custo fixo. Cada uma responde a uma pergunta diferente.

Camada Como se calcula O que fica de fora Para que serve
Margem bruta por litro Preço de venda do litro menos o custo de aquisição daquele litro, no local de estoque de onde saiu Frete até o cliente, comissão, despesa fixa Comparar produto com produto e base com base
Margem de contribuição por litro Margem bruta menos os custos que variam com aquela venda, como frete, comissão e tributo sobre a operação Aluguel, folha administrativa, depreciação Decidir preço, cliente e rota
Margem líquida por litro Margem de contribuição menos o rateio do custo fixo do período Nada, e é por isso que ela só fecha depois do mês Avaliar o resultado da operação

A camada do meio é a que sustenta decisão do dia a dia, e é a menos calculada. Sem ela, uma venda que parece boa na margem bruta pode consumir resultado depois de somado o frete até um cliente distante.

 

Receita 31,9% maior, resultado bruto 9,9% maior: o que o balanço da 3tentos mostra

O efeito fica visível num caso público e auditável. A 3tentos fechou o segundo trimestre de 2026 com receita líquida de R$ 4,70 bilhões, alta de 31,9% sobre o mesmo trimestre de 2025, conforme o formulário de informações trimestrais entregue à Comissão de Valores Mobiliários em 13 de agosto de 2026.

No mesmo trimestre, o custo dos produtos vendidos subiu 37,5%, mais do que a receita. O resultado bruto cresceu apenas 9,9%, e a margem bruta caiu de 20,3% para 16,9%.

Traduzindo para a linguagem de quem vende litro: cada real de receita adicional deixou cerca de seis centavos de resultado bruto adicional. O faturamento cresceu quase um terço e a rentabilidade sobre ele encolheu.

Vale um cuidado com os números que circularam. O lucro contábil do trimestre foi de R$ 205,9 milhões, queda de 37,8%. O número de R$ 14,4 milhões, com queda de 86,3%, refere-se ao lucro líquido ajustado, que é uma medida não contábil divulgada pela própria companhia. São coisas diferentes, e a distinção importa quando o dado vira argumento.

O que o caso demonstra é simples e transferível: quando a composição do que se vende muda em direção a itens de menor margem, o faturamento pode crescer enquanto o resultado anda para trás.

 

O mix também mudou no combustível: o volume por segmento no segundo trimestre de 2026

O mesmo movimento aparece no setor de combustíveis, e dá para medir. Nos dados abertos de vendas de derivados de petróleo e biocombustíveis da ANP, atualizados em 28 de agosto de 2026, as vendas de gasolina C, óleo diesel e etanol hidratado somaram 1,9% a mais no segundo trimestre de 2026 que no mesmo período de 2025. Mas o crescimento não foi parelho entre os segmentos.

Segmento de destino 2º tri de 2025 (m³) 2º tri de 2026 (m³) Variação
Posto revendedor 26.381.181 27.171.108 +3,0%
TRR 2.780.115 2.442.250 -12,2%
Consumidor final 4.401.818 4.596.196 +4,4%
Total 33.563.113 34.209.553 +1,9%

O mercado somou volume e o TRR perdeu 12,2% dele, com queda em três meses seguidos. Dentro do total, o diesel recuou de 50,6% para 49,9% de participação, enquanto etanol e gasolina cresceram mais.

Ou seja: o mesmo total de litros, com outra composição, dá outro resultado. E não existe resposta de mercado para “qual produto dá mais margem”, porque a resposta depende do custo de aquisição de cada operação.

Esse é o mesmo terreno da volatilidade do mercado de combustíveis em 2026, com a diferença de que aqui o efeito não vem do preço, vem da composição.

Braço de carregamento conectado ao bocal superior de um caminhão-tanque, visto da passarela da plataforma

 

Onde a margem por litro se perde em cada segmento, e onde ela é medida

Há um fato incômodo sobre esse indicador: ele não existe em base pública nenhuma. Nos arquivos da série histórica de preços de combustíveis da ANP, de agosto de 2026, o campo de valor de compra vem vazio em todas as coletas. A margem por litro só nasce dentro da empresa, do cruzamento entre o custo de aquisição no local de estoque e o preço praticado.

E ela se perde em lugares diferentes conforme o segmento.

Onde cada segmento perde margem

No posto ou na rede, a perda mora no preço atualizado à mão na bomba e na conciliação de cartão feita fora do sistema. O litro sai certo e o recebível volta errado. A atualização automática de preços por item, por grupo de item e até por bico fecha a primeira ponta.

No TRR, ela mora no frete que não entra na conta do pedido e no comodato sem análise de lucratividade. Depois de perder 12,2% de volume no trimestre, a margem por litro deixou de ser detalhe. Tabela específica de custo de frete e análise de viabilidade do comodato atacam exatamente isso.

Na distribuidora, mora na ausência de custo por local de estoque, que faz vender abaixo do custo quando o litro sai de uma base e é precificado pelo custo de outra. A definição de custo por local e a rotina centralizada de tabelas de preço com vigência e histórico resolvem a origem do erro.

Na armazenadora, mora antes de qualquer preço: volume medido a temperatura ambiente e não a 20°C distorce a base de toda a conta. O controle de estoque ambiente e a 20°C corrige a medida na raiz.

Essas rotinas são do VIASOFT Petroshow, e o indicador consolidado sai no BI Orion. Mas o ponto não é o software: é que sem custo por origem não existe margem por litro, existe média.

 

Perguntas frequentes sobre margem por litro de combustível

Como calcular a margem por litro de combustível?

Subtraia do preço de venda o custo de aquisição daquele litro, considerando o local de estoque de onde ele saiu. Isso dá a margem bruta. Para decidir preço e cliente, desconte também o que varia com a venda, como frete e comissão, e chegue à margem de contribuição.

Por que o faturamento cresce e o lucro cai?

Em geral porque a composição do que se vende mudou em direção a produtos de menor margem, ou porque o custo subiu mais que o preço. Foi o que aconteceu no segundo trimestre de 2026 com a 3tentos: receita 31,9% maior, custo 37,5% maior e resultado bruto apenas 9,9% maior.

Qual produto dá mais margem: gasolina, diesel ou etanol?

Não há resposta de mercado para isso. A margem depende do custo de aquisição de cada empresa, da base de onde o produto saiu e do preço praticado na região. Duas operações vizinhas podem ter margens opostas no mesmo produto, no mesmo mês.

Onde encontro a margem por litro em dados públicos?

Em lugar nenhum. Nos arquivos de dados abertos da ANP, o campo de valor de compra vem vazio em todas as coletas. O preço de venda é público; o custo de aquisição, não. A margem por litro só existe dentro do sistema de cada empresa.

Margem bruta e margem de contribuição são a mesma coisa?

Não. A bruta considera apenas preço menos custo de aquisição. A de contribuição desconta também o que varia com aquela venda específica, como frete até o cliente e comissão. Uma venda com boa margem bruta pode ter margem de contribuição baixa se o cliente estiver longe.

 

A pergunta que o volume não responde

Faturamento maior, resultado menor. Não é anomalia de um trimestre nem privilégio de companhia aberta: é o que acontece sempre que o mix muda e a empresa mede litros em vez de medir margem por litro.

O indicador não vem de fora. Ele nasce do custo por origem cruzado com o preço praticado, e por isso só existe se a operação registrar as duas pontas no momento em que elas acontecem.

Se a sua operação vendeu mais este mês, você sabe dizer o que aconteceu com a margem?

Foto de Any Gabriely Oliveira
Any Gabriely Oliveira
Analista de Marketing do Grupo VIASOFT

Você sabe a margem por litro de cada produto que vende?

O VIASOFT Petroshow define custo por local de estoque, atualiza preço por item e por bico e leva o indicador consolidado ao BI Orion. Fale com a nossa equipe e veja onde a sua margem está se perdendo.