Plano de sucessão de liderança: como saber se a empresa tem sucessor

Mais da metade das companhias abertas brasileiras declara que não tem plano de sucessão do presidente aprovado pelo conselho. E, pelas próprias justificativas, o motivo é que o assunto foi parar na área errada.

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Toda empresa sabe quanto vai investir na próxima frente que abrir. Poucas sabem dizer quem vai comandá-la. Um plano de sucessão de liderança existe justamente para responder isso antes de a cadeira vagar, e não depois. No Brasil, a maioria das companhias abertas admite formalmente que não tem esse plano, e é a prática de governança com o maior índice de “não” do país.

 

O que é um plano de sucessão de liderança

Plano de sucessão de liderança é o processo formal que identifica as posições críticas da empresa, mapeia quem poderia assumi-las, mede o quanto cada candidato está pronto e define o que falta para que fique. Ele existe no papel, tem dono e é revisado em data marcada.

Quatro elementos separam um plano de uma intenção:

  1. a lista de posições críticas, escrita;
  2. o nome de pelo menos um sucessor possível para cada uma;
  3. uma classificação de prontidão com prazo;
  4. a instância que aprova e revisa, com periodicidade definida.

Falta um dos quatro e o que existe é uma conversa, não um plano. Foi o que a carta do CEO sobre a fraqueza das empresas para 2026 chamou de estrutura que depende de heróis. A diferença aparece no dia em que alguém sai: com plano, a empresa consulta uma lista; sem plano, ela abre uma discussão.

Vale desfazer uma confusão comum. Sucessão de liderança não é o mesmo que sucessão familiar ou patrimonial. A primeira trata de quem ocupa cadeiras de comando na operação; a segunda, de quem herda participação societária. Empresas de capital fechado costumam ter a segunda organizada e a primeira não.

 

Quantas empresas brasileiras têm plano de sucessão de liderança

O dado mais direto sobre isso vem dos Informes de Governança que as companhias abertas entregam à CVM. O estudo Pratique ou Explique, do IBGC em parceria com EY e TozziniFreire, divulgado em 4 de novembro de 2025, analisou 364 companhias e mediu prática por prática.

Recorte Companhias sem plano de sucessão do diretor-presidente aprovado e mantido pelo conselho
Todas as companhias abertas analisadas 55,2%
Companhias do Novo Mercado 49,2%

Não é apenas um número alto. É a prática de governança com o maior índice de não adoção do levantamento, e ela lidera esse ranking há cinco anos seguidos. Ou seja, não é efeito de um ano ruim.

O achado mais útil, porém, está nas justificativas. Entre as explicações das companhias do Novo Mercado, um padrão se repete: a sucessão do presidente aparece tratada com frequência como responsabilidade da área de Recursos Humanos, e não do conselho de administração.

Isso muda o diagnóstico. O problema declarado pelas próprias empresas não é falta de ferramenta nem de gente. É a instância errada tomando conta do assunto. É a mesma leitura que levou o Grupo VIASOFT a criar uma diretoria dedicada a inteligência humana e performance, tirando o tema do rodapé da agenda.

 

Quais posições entram no plano de sucessão de liderança

Posição crítica não é sinônimo de cargo alto. O critério é o impacto da ausência: quanto tempo a operação aguenta sem aquela cadeira ocupada, e o que para enquanto ela estiver vazia.

Por esse critério, entram no plano três tipos de posição. As de comando com responsabilidade sobre resultado, que é o caso óbvio. As que concentram relacionamento com cliente ou fornecedor difícil de transferir. E as que detêm conhecimento técnico sem par dentro da casa, mesmo em nível hierárquico intermediário.

Esse terceiro tipo é o mais esquecido, e costuma ser o que dói mais rápido. Ele tem parentesco direto com o que se vê em picos de saída no início do ano, quando a empresa descobre a dependência pela ausência. Um gerente de unidade que sai tem substituto no organograma. Um especialista que era o único a saber conduzir determinado processo, não.

Também vale mapear o inverso: posições altas que a empresa consegue deixar vagas por meses sem prejuízo real. Elas existem, e mantê-las no plano consome atenção que faz falta em outro lugar.

 

Como medir se um sucessor está pronto

Dizer que alguém “tem potencial” não é medida. Prontidão se declara com prazo e se sustenta com evidência, e é isso que permite comparar dois nomes que ninguém do comitê conhece igualmente bem.

Nível de prontidão O que significa Evidência que sustenta
Pronto agora Assume a posição hoje, sem preparação adicional Já substituiu o titular em ausência prolongada, com resultado observado
Pronto em até um ano Falta exposição específica, não capacidade Lacuna nomeada e plano de desenvolvimento em curso, com prazo
Pronto em dois a três anos Precisa de trajetória, não de treinamento pontual Histórico de entrega crescente e movimentação prevista
Não é sucessor daquela posição É talento, mas para outro caminho Avaliação registrada, para não voltar à lista por inércia

A última linha é a que mais falta nos planos reais. Sem ela, nomes ficam circulando entre revisões porque ninguém quer ser quem os retira, e o banco de sucessores incha sem ficar melhor.

A evidência importa mais que a nota. “Substituiu o diretor por três meses e a operação não caiu” é um fato verificável. “Alto potencial” é opinião de quem preencheu o formulário.

Crachá corporativo sem identificação e caderno fechado sobre a mesa de uma sala de reunião vazia

 

Sucessão em operação com dezenas de unidades: o problema é comparabilidade

Numa empresa de uma unidade, o comitê conhece os candidatos. A partir de algumas dezenas de unidades, ninguém conhece todo mundo, e a conversa passa a depender do que está registrado.

É aí que aparece o problema silencioso: o mesmo critério aplicado por gestores diferentes produz classificações que não se comparam. Um gerente rigoroso classifica seu melhor liderado como “pronto em um ano”. Um gerente generoso classifica um equivalente como “pronto agora”. As duas fichas chegam iguais ao comitê e significam coisas diferentes.

O resultado é um banco de sucessores que parece cheio e não sustenta decisão. Quando a cadeira vaga, o comitê descobre que precisa reavaliar todo mundo, e reavaliar leva o tempo que não existe.

Resolver isso é menos sobre ter mais dados e mais sobre ter o mesmo dado. Critério único, escala única, evidência registrada no mesmo formato. É o que uma plataforma como o VIASOFT Voors organiza: avaliação de desempenho e mapeamento de talentos com o mesmo padrão em todas as unidades, incluindo o método 9-box para gestão de desempenho, e a universidade corporativa para fechar as lacunas nomeadas na classificação.

 

Os indicadores que mostram se o plano de sucessão existe na prática

Um plano de sucessão de liderança se prova por quatro indicadores que a empresa mede em casa. Nenhum deles depende de benchmark de mercado, e é bom que seja assim, porque esse benchmark não existe no Brasil de forma pública.

  1. Cobertura das posições críticas. Quantas têm ao menos um sucessor nomeado. Abaixo de 100%, a lista mostra exatamente onde a empresa está exposta.
  2. Prontidão distribuída. Quantos sucessores estão prontos agora, e não só quantos existem. Um banco só de “pronto em três anos” não protege de nada no ano que vem.
  3. Origem de quem assume. A proporção entre promoção interna e contratação externa nas posições críticas, medida ao longo do tempo.
  4. Data da última revisão. Plano revisado uma vez e arquivado envelhece junto com as pessoas que ele lista.

O número que não existe em base pública brasileira

Sobre o terceiro indicador, uma ressalva honesta: não há série pública brasileira que compare promoção interna e contratação externa em cargos de comando. Procuramos em IBGE, CAGED e RAIS. O CAGED registra vínculos, não promoções, então quando alguém de dentro assume a cadeira não fica registro estatístico nenhum. É um número que só existe se a empresa medir o próprio.

O que os microdados públicos do Novo CAGED mostram é a rotatividade do comando. Em uma apuração própria sobre o arquivo de julho de 2026 do Novo CAGED, do Ministério do Trabalho e Emprego, recortando as ocupações de direção e gerência, encontramos 51.932 desligamentos contra 38.777 admissões no mês. São cerca de 2.258 cadeiras de comando desocupadas por dia útil. A conta é reproduzível, e os totais gerais do mesmo arquivo batem com os que o ministério divulgou em 28 de agosto de 2026.

Esse número não diz que o país perde liderança, porque uma saída aqui costuma ser uma entrada ali. Diz outra coisa: a cadeira de comando muda de ocupante com frequência alta o suficiente para que esperar a vaga aparecer seja uma aposta ruim. Quem acompanha isso junto de indicadores de gestão de pessoas percebe o movimento antes de ele virar urgência.

 

Perguntas frequentes sobre plano de sucessão de liderança

Qual a diferença entre plano de sucessão e plano de carreira?

O plano de carreira parte da pessoa e descreve para onde ela pode ir. O plano de sucessão parte da posição e descreve quem pode ocupá-la. Um mesmo profissional aparece nos dois, mas com perguntas diferentes: no primeiro, o que ele quer; no segundo, do que a empresa precisa.

A partir de que tamanho uma empresa precisa de plano de sucessão?

O gatilho não é o número de funcionários, é a dependência. Se a ausência prolongada de uma única pessoa trava faturamento, produção ou relacionamento com cliente, já existe posição crítica a mapear. Isso acontece em empresas de qualquer porte, inclusive nas pequenas.

De quem é a responsabilidade pelo plano de sucessão?

Do conselho de administração, quando ele existe, ou do principal órgão de decisão da empresa. O estudo do IBGC de 2025 mostra que tratar a sucessão do presidente como assunto exclusivo de Recursos Humanos é justamente a justificativa que as companhias dão quando não têm o plano.

Com que frequência o plano deve ser revisado?

Em data marcada, no mínimo uma vez por ano, e sempre que uma posição crítica mudar de ocupante ou surgir. O que descaracteriza um plano não é o intervalo longo, é a revisão que nunca acontece porque não tem dono nem agenda.

Como saber se o banco de sucessores é confiável?

Teste a comparabilidade. Pegue dois candidatos classificados no mesmo nível por gestores diferentes e verifique se a evidência registrada sustenta a mesma leitura. Se não sustentar, o banco está medindo o avaliador, e não o avaliado. Critério único e evidência no mesmo formato resolvem isso melhor do que acrescentar campos à ficha.

 

A pergunta que decide

Mais da metade das companhias abertas brasileiras declara à CVM que não tem plano de sucessão do presidente aprovado pelo conselho. Não por descuido: pelas próprias explicações, porque o assunto foi parar na área errada da empresa.

A correção não começa por ferramenta. Começa por escrever a lista de posições críticas, colocar um nome ao lado de cada uma e marcar a data da próxima revisão. O resto é consequência disso.

Se a sua principal posição de comando vagasse na segunda-feira, você consultaria uma lista ou abriria uma discussão?

Foto de Bruna Tardetti
Bruna Tardetti
Analista de Marketing do Grupo VIASOFT

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